Como criar seu próprio Trabalho

Mudar de trabalho pelas pessoas

Como fazer para criar o nosso próprio trabalho, em meio ao desafio que o Futuro do Trabalho, nos trouxe: descomplicar as novas possibilidades de formato de trabalho para que possamos adotar com clareza essas transformações. Afinal, como será que tudo isso afeta a nossa rotina? Quando eu comecei a estudar o futuro do trabalho, eu queria resolver era o “presente” do trabalho. Do meu trabalho, para ser mais exata.

 

Acontece que hoje não tem mais receita (padrão). A combinação de liberdade, flexibilização e centenas de opções de áreas de interesse, vão fazer com que cada pessoa resolva o seu “presente” do trabalho, de jeitos diferentes.

Eu vim da consultoria, e me apeguei à metodologia que eu já conhecia para resolver o meu presente do trabalho. Que agora vou dividir aqui com você! Pode ser que esse modelo também funcione para você.


Como usar o 5W2H para traçar novos caminhos profissionais

Como usar o 5W2H para traçar novos caminhos profissionais

O 5W2H é, originalmente, um checklist que traz mais clareza e eficiência para determinado projeto. A sigla, em inglês, se refere a sete diretrizes que juntas desenham um contexto específico: o quê (what), por quê (why), onde (where), quando (when), quem (who), como (how) e quanto (how much).

No ambiente de negócios, essas respostas alinham os objetivos (o fim) e as atividades (o meio), diminuindo dúvidas e otimizando a criação de valor. Numa adaptação livre, transformei cada item em um ponto no mapa de rotas profissionais possíveis.

 

1. Por quê

Para honrar o icônico TED do Simon Sinek, vamos começar pelo o porquê.  Abordando propósito e expressão – que são duas coisas essenciais para quem busca uma nova relação com o trabalho.

 

  1. PROPÓSITO é interno.

São valores e motivações próprios, o que nos faz levantar da cama de manhã. É um exercício pessoal de autoconhecimento e descoberta que nos permite entender melhor nossos reais objetivos. Às vezes a busca por propósito pode ser massante e paralisar: se não sei meu propósito, não faz sentido continuar.

Numa referência aleatória à artista Flexa, “correr sem rumo é esperar em movimento”. Ou seja, tá tudo bem andar sem um destino certo. O clichê de que a jornada é o caminho de fato traz algum conhecimento milenar: o movimento ensina.

 

A ideia não é ficar parado, esperando que uma força maior que te impulsione, e sim tomar o controle e ir descobrindo por si – como um quebra-cabeça cujas peças estão espalhadas no tempo.

 

  1. EXPRESSÃO é externo.

É como comunicamos nosso propósito, é o que nos conecta com pessoas, iniciativas e marcas com valores comuns. É a fonte da sensação de pertencimento e influência que nos faz sentir bem em empregos, grupos, relacionamentos. Os eventos que atendemos, os posts que compartilhamos, os grupos do qual somos parte e até as conversas com as quais escolhemos nos engajar são manifestações do porque existimos e o que defendemos.

 

Em geral, esse alinhamento vem naturalmente, assim que passamos a viver conforme crenças e premissas próprias. É a tal da coerência, que deixa nossas ações mais sólidas e nosso impacto mais forte, qualquer que seja o âmbito que optamos por influenciar.

 

São várias as esferas do mundo que precisam de atenção, e é uma escolha de cada um de nós decidir qual é a que vamos abraçar. Enquanto existirem pessoas, vão existir problemas a serem resolvidos e soluções criativas a serem inventadas.

 

Esse exercício é justamente por isso: para encontrarmos aquilo que nos move e passarmos a representar esse tema, advogar por ele. Não significa que é imutável, mas que terá toda nossa atenção até sentirmos que novas forças nos impulsionam em outro caminho.


2. Onde

Trabalho remoto e local de trabalho

A flexibilização do trabalho chegou em várias áreas, a mais evidente sendo nesta. A prova é o surgimento de empregos “independentes de local” ou “trabalhadores remotos” e “times distribuídos”. Cada vez mais, o local de trabalho vem sendo uma escolha, e muitos profissionais possuem cada vez mais, a opção para decidir se saem ou não de casa para realizar seus trabalhos.

 

São três as principais formas de trabalho remoto:

 

  • Contratados: trabalham para uma empresa ou organização, recebem salário mas não são cobrados presença física. Existem alguns passos intermediários (ser remoto alguns dias da semana ou visitar o escritório para reuniões) que também podem funcionar de acordo com as duas partes. A Grow Remote ajuda pessoas e organizações a adotarem esse formato.

 

  • Freelancers: não têm vínculos com uma empresa específica, mas provém serviços a diversos clientes. Os “freelas” realizam projetos específicos (com início e fim) e, por isso, têm maior flexibilidade, mas menores benefícios (como seguros e férias). O pessoal do Be Freela trabalha nesse formato e dividem experiências, dicas e referências sobre o tema. Também existem diversos sites de projetos para esses profissionais, como o Freelancer, o 99Freelas e o GetNinjas.

 

  • Empreendedores: Também sem vínculo empregatício, mas diferente dos freelancers, não trabalham por projeto. Quem empreende em geral já tem um CNPJ e trabalha, mesmo que de forma independente, como uma entidade – uma empresa ou organização em busca de um propósito único. Uma boa forma de iniciar nesse formato é participando de eventos do Startup Weekend, onde se criam times para transformar ideias em projetos em 54 horas, durante um fim de semana.

 

Há inúmeras listas das vantagens do trabalho à distância que abordam foco, criatividade, custos, viagens, independência, autonomia e outros benefícios pessoais de deixar o escritório.

 

Mas a verdade é que a transformação é muito mais abrangente: desprender pessoas de lugares permite que elas vivam em regiões de custos mais baixos (longe dos grandes centros urbanos) e que assim desenvolvam economias periféricas. Sem a necessidade de transporte, diminui-se o número de veículos nas ruas e assim, o trânsito e a poluição.

 

A competição torna-se ainda mais global: de um lado, as equipes se tornam quase onipresentes e podem atuar em uma área mais abrangente do globo. De outro, empresas e organizações passam a buscar talentos num mercado comum, sem limitações geográficas, o que aumenta a competição e a qualidade das contratações.

 

Os desafios que surgem com a distância motivaram diversas aplicações que buscam aproximar os times e dar agilidade mesmo a quem trabalha em diferentes países, horários e rotinas. Os principais são focados em comunicação (Slack, Zoom, Skype), gerenciamento de projetos (Trello, Monday), produtividade (To Doist, Toggl, PomoToDo) e compartilhamento de documentos (Drive, Dropbox).

 

Novas necessidades (e, assim, novas soluções) surgem a todo o momento. Utilizá-las para otimizar processos e ritmos vai depender do perfil e engrenagem de cada time. Como qualquer mudança, a maturidade em qualquer formato é chave para ganhos crescentes de liberdade e produtividade.


3. Quando

Quando mudar de trabalho

É comprovado que cada um de nós reage de uma forma diferente ao tempo e que produtividade depende intrinsecamente de aspectos biológicos: se as pessoas não são iguais, por quê deveriam ter os mesmos horários?

 

Seja qual for a área, está cada vez mais claro que contabilizar o trabalho em horas é ultrapassado e contraprodutivo – e surgem diversas teorias alternativas para calcular esse valor. Se trabalhar das 9h-18h (e frequentemente muito além disso) não é garantia de resultado, flexibilizar os momentos de trabalho é essencial para uma equipe otimizada. Não é à toa que diversos escritórios e espaços de trabalho compartilhado (como o WeWork e o Regus) já mantêm-se abertos 24h, permitindo a quem madruga ou vira a noite seguirem no seu fluxo produtivo – quem sabe até cruzando-se nos corredores.

 

Se combinarmos as duas tendências, fica claro que trabalhar de casa (ou de cafés e espaços públicos) permite que cada um otimize os picos de disposição e energia – evitando os momentos de cansaço e desconcentração. Caso essa distinção não seja clara para você, existe um teste que usa as suas sensações diárias para identificar o seu relógio biológico e quando esse perfil, em geral, trabalha melhor.

 

Quando ⅔ da população luta para acordar no horário chamado útil, o quão útil de fato é essa hora do dia? Além disso, “em algum lugar do mundo, é dia” – mesmo que o sol ainda não esteja onde você trabalha. Com times distribuídos em diferentes zonas temporais, aqueles com relógios internos incomuns já podem comemorar.


4. Quem

Mudar de trabalho pelas pessoas

Esse é um passo importante porque reflete os principais motivos que levam profissionais a odiarem seus trabalhos e eventualmente decidirem deixar seus empregos.

  • A quem respondem (relacionamento com a liderança);

  • Com quem trabalham (proximidade da equipe);

  • Com quem almoçam (amizades no escritório);

  • “Quem” se sentem durante o horário útil (se entediados, felizes, reconhecidos ou úteis);

  • A quem impactam (o resultado dos seus esforços e como melhoram o mundo);

  • Quem querem se tornar (se evoluem e crescem pessoal e profissionalmente).

 

Quem nos acompanha na rotina de trabalho – suas ideias, perspectivas, seu humor e atitudes – transformam nossa experiência, para melhor ou pior. Nunca se falou tanto sobre cultura, empatia e relações interpessoais. Nunca se incentivou tanto o feedback 360, o reconhecimento público e os eventos de engajamento e troca.

Um exemplo de cuidado com o quem vem da Perestroika – escola que não só inova no ensino, mas também na gestão. Com um modelo de negócio em rede e o objetivo de introduzir todos os colaboradores ao empreendedorismo, eles criaram cinco ciclos de aprendizado que culminam em novos negócios (dentro ou fora da empresa). Como todos lá dentro são sócios ou sócios em formação, esse cuidado é essencial: eles não contratam ninguém com quem não sairiam para tomar uma cerveja no happy hour, independente das qualificações técnicas.

*A Miki Agrawal, falando sobre sociedade, confirma: só trabalhe com aquelas pessoas com quem sentariam em um vôo de 17 horas.


5. Como

Formatos de trabalho vem se tornando meu tópico favorito: há várias formas de impactar o mundo positivamente – e na maioria das vezes a gente tá tão ocupado que nem percebe.

 

Há infinitas alternativas – e nesse mercado cada vez mais complexo, surgem novas a todo momento. São empresas privadas e públicas, startups, governos, organizações do terceiro setor, consultoria dos assuntos mais variados, negócios de impacto social, fundos de investimento e por aí vai.

 

Sem contar as diferentes funções em cada uma das opções, os inúmeros países a explorar, as possibilidades de trabalho independente e os diversos projetos autorais com os quais podemos nos envolver. (Confere algumas combinações na vo.lar!)

 

Um movimento que vêm aumentando esse leque é o setor 2.5, entre uma empresa e uma ONG. Alguns exemplos desse grupo são a Volunteer Vacations, a Smile Flame e a Mandalah. A própria Perestroika e outras redes distribuídas também vêm desafiando os modelos tradicionais de trabalho que conhecemos (e adotamos) hoje, criando uma atuação entre funcionário e empreendedor.

 

As possibilidades são infinitas: alguns defendem que seremos todos freelancers, outros que as organizações vão ser todas guiadas por propósito. Não sei fazer previsões, só sei que o caminho que estamos tomando já está cheio de coisa legal 😀


6. Quanto

Segurança financeira para mudar de trabalho

Primeira pergunta de todo mundo com medo de arriscar: quanto eu ganho com isso?

 

Óbvio que segurança financeira conta. E não vou entrar no mérito de risco e retorno (apesar de ser uma verdade). A conta é simples: o que entra tem que ser maior que o que sai. Mas não é fácil – especialmente em momentos de incerteza, de tentativa e erro.

 

Temos duas variáveis:

  • O que entra: desconsideremos aquela reserva que guardamos para mimos pessoais ou emergências (uma viagem, uma roupa nova ou um sos fiquei-sem-job). Salário mensal é um vício que por si só já bloqueia qualquer plano B criativo, mas supondo que essa não seja uma opção e que precisamos usar de todas as nossas habilidades para explorar sem passar fome.

 

Duas coisas são certas: todo mundo é bom em alguma coisa e ninguém é bom em todas as coisas. Resultado: precisamos achar alguém (CPF ou CNPJ) que precise daquilo que temos pra oferecer. E aqui podemos usar dos formatos flexíveis que já falamos: um trabalho remoto (vínculo formal e tudo), “bicos” freelancers* (a economia GIG), projetos alternativos. Talvez não seja exatamente o que você sonha, mas vai te dar liberdade para investir tempo no que ama – recebendo ou não por isso! O segredo? Confiança e coragem. (Um sorriso no rosto ajuda – muito!)

 

*Além dos sites que citei (principalmente de design e tecnologia), há plataformas específicas para diferentes expertises. Para os colegas consultores, por exemplo, algumas são:  A-Connect, Eden McCallum, Hourly Consulting, Talmix, GLG group.

 

  • O que sai: Com a mudança, há grandes chances, principalmente no início, de não cobrir todos os custos iniciais – mas essa é a parte mais fácil de mexer. Inclusive, dependendo dos questionamentos e dúvidas motivadores da transformação, é essencial ajustar nosso estilo de vida – e o consumo é grande parte disso.

 

São várias as manifestações dessa nova mentalidade de que menos é mais: Os Minimalistas têm até documentário no Netflix, a Life Edited já construiu prédio até no Brasil e sites como o Enjoei que faturaram mais de R$ 60 bilhões em 2016. De novo, a conta é simples: não tem problema entrar menos (pelo menos por um período) se nossos gastos também forem mais controlados. E no ritmo de hoje, especialmente para quem optar por um estilo de vida viajante: comprar significa ter que guardar – e o espaço tá quase menor que o orçamento!

 

Equilibrar os dois lados da balança pode ser difícil, mas se for o custo para encontrar o caminho certo, que seja. Arriscar hoje é muito mais seguro do que era ontem – e essa tendência vai continuar.

 

A aproximação com outros indivíduos, profissionais, marcas e programas que ajudem nesse processo foi muito facilitada com a internet, as redes sociais, e a vontade crescente de estourar bolhas e permitir que cada vez mais as possibilidades de um sejam as possibilidades de todos.


7. O quê

Desconfio de todas as respostas que se posicionam como únicas ou definitivas. O mundo é tão rico e tão plural que sempre há novos caminhos e misturas possíveis. O desafio é fugir da ansiedade e do FOMO (medo de deixar passar) e ver as possibilidades como são: rotas de escape para frustrações e insatisfações.

 

“Se não gostas de onde estás, move-te. Não és uma árvore.”

E não precisa ser nenhuma mudança drástica: um mix & match rápido dos tópicos do 5w2h já dá uma ideia das opções.

Dá pra seguir no emprego (o quê) e flexibilizar horário (quando). Ou então trocar para o part-time (quando) com um corte de salário (quanto). Dá pra mudar de time (quem), de área (o quê) ou de país (onde). Ou dá pra largar tudo e começar algo próprio (como) ou junto a uma organização que te orgulhe (por quê).


E agora? Lidar com a pressão da mudança

Cada passo é do tamanho que tem que ser – mas uma coisa é certa: mover-se exige coragem. E a Brené Brown nos desafia a acharmos “um único exemplo de coragem que não requer incerteza, risco ou exposição emocional”. O que muda é o grau: e ter esses sete itens em mente ajuda a desatrelar ação de propósito (e toda a pressão que se coloca em cima dele).

 

Essa pressão cria a necessidade de estarmos constantemente refletindo sobre nossa própria capacidade e existência, misturando quem somos com o quê fazemos. Em nome da saúde mental, não caia nessa cilada: você não é o seu emprego. Mas torna a vida muito mais leve se ambos estiverem alinhados, na mesma direção.

Maria Julia Bezzi

Co-founder at vo.lar
Vejo o mundo como um conjunto de processos de ponta a ponta a serem otimizados. Acredito na mistura de pessoas e da tecnologia. Minha energia vem do sol as conexões que crio são chave para um crescimento sustentável e exponencial.
Maria Julia Bezzi

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